O cerco jurídico e político contra o Consórcio Guaicurus, grupo responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande, ganhou novos desdobramentos nesta semana. Um grupo de motoristas e funcionários administrativos prestou depoimentos fundamentais em uma investigação que apura uma série de irregularidades na gestão do consórcio. Entre as graves acusações estão fraudes em registros de jornada, manobras para burlar direitos trabalhistas e relatos sistemáticos de assédio moral contra aqueles que questionam as diretrizes operacionais das empresas.
A investigação, que corre em diferentes esferas, foca em pontos críticos levantados pelos trabalhadores:
- Manipulação de Escalas: Suspeitas de que os horários de descanso estariam sendo reduzidos artificialmente nos registros oficiais;
- Assédio Moral: Relatos de perseguição contra funcionários que denunciam a precariedade da frota ou buscam auxílio sindical;
- Segurança do Trabalho: Queixas sobre a falta de manutenção básica em terminais e ônibus, colocando em risco tanto os operadores quanto os passageiros.
“O depoimento desses trabalhadores é a peça que faltava para entendermos o abismo entre o que é relatado nos relatórios do Consórcio e a realidade vivida nas garagens e terminais da nossa Capital”, destacou um dos parlamentares que acompanha a comissão de fiscalização.
Pressão por Transparência e Caducidade
A movimentação dos trabalhadores ocorre em um momento de extrema fragilidade para o Consórcio Guaicurus. A prefeitura e a agência reguladora local enfrentam pressão popular para avaliar a caducidade do contrato de concessão, dada a insatisfação geral com o serviço prestado. As denúncias de fraude no sistema de transporte não apenas comprometem a relação trabalhista, mas também levantam dúvidas sobre a veracidade dos dados utilizados para o cálculo da tarifa paga pelo usuário campo-grandense.
O Outro Lado
Em notas anteriores, o Consórcio Guaicurus tem negado a existência de práticas de assédio e afirma que cumpre rigorosamente a legislação trabalhista vigente e os termos do contrato de concessão. A defesa das empresas alega que o sistema passa por uma crise financeira severa e que as críticas seriam fruto de motivações políticas.
As investigações seguem em sigilo parcial para proteger a identidade de alguns depoentes que ainda possuem vínculo ativo com as empresas. O desfecho dessas oitivas pode resultar em multas milionárias aplicadas pelo Ministério Público do Trabalho e servir de base para uma possível intervenção judicial no sistema de transporte da cidade. Para o cidadão que depende do ônibus diariamente, a expectativa é que a pressão sobre o consórcio resulte, finalmente, em uma melhoria real no serviço e no respeito aos profissionais que movem a Capital.
Prefeitura avalia assumir a operação do transporte
Diante da gravidade dos depoimentos dos trabalhadores e da incapacidade do Consórcio em cumprir cláusulas contratuais básicas, a gestão municipal iniciou estudos jurídicos para a retomada do serviço. A proposta é que a Prefeitura assuma a operação de forma emergencial, garantindo o pagamento dos salários e a manutenção mínima da frota até que um novo processo licitatório — ou um modelo de gestão pública — seja implementado.
Essa mudança de postura ocorre após anos de subsídios milionários que não resultaram na melhoria esperada pela população. O anúncio de que o município pode “tomar as chaves” das garagens é visto como uma resposta à pressão do Ministério Público e à insatisfação popular que atingiu níveis recordes em 2026.
Reestruturação administrativa e intervenção na Agetran
A crise no transporte também provocou mudanças profundas na Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran). Críticas sobre a fragilidade dos mecanismos de fiscalização e a necessidade de maior distanciamento institucional entre a agência e as empresas concessionárias levaram à substituição de cargos estratégicos e a uma renovação técnica na diretoria da autarquia.
- Nova Gestão: A reformulação no comando da Agetran visa estabelecer um perfil mais rigoroso e independente, com foco em auditorias em tempo real nos dados de bilhetagem e no cumprimento da quilometragem rodada;
- Transparência: Uma das primeiras medidas da nova diretoria será o detalhamento dos custos operacionais, permitindo que a sociedade acompanhe a aplicação dos repasses públicos de forma clara.
“Não podemos mais aceitar uma agência reguladora que atue de forma passiva. A Agetran deve exercer seu papel de autoridade para garantir que o cidadão receba o serviço pelo qual paga”, afirmou o novo corpo diretivo durante a cerimônia de posse.
O Futuro do Passageiro
Para o trabalhador que depende do ônibus, a mudança na gestão da Agetran e a possível saída do Consórcio Guaicurus trazem um misto de esperança e incerteza. Especialistas alertam que a transição para um modelo municipalizado exige planejamento para evitar a interrupção das linhas. Enquanto isso, os depoimentos continuam: a cada nova fraude revelada pelos funcionários, o Consórcio fica mais próximo de perder definitivamente o direito de operar na Capital sul-mato-grossense.




